
São incontáveis os motivos pelos quais nós, humanos, adoecemos emocionalmente. Os nomes para o que causa essa dor fazem aumentar cada vez mais as classificações diagnósticas de doenças. E mesmo assim, com tanta descrição médica meticulosamente enumerada, mesmo com um diagnóstico em mãos, a dor continua a pulsar fazendo o sofrimento atingir níveis paralisantes para muitas pessoas.
O que fazer diante deste sofrimento muitas vezes arrebatador, um tal aperto no peito que chega a dar falta de ar, uma tristeza por vezes infinita, de forma que todos os médicos visitados pelo paciente, e exames e mais exames apontam para falta de achados clínicos significativos? Mas o paciente continua afirmando: “não é possível! O que eu tenho é real… dói! Eu sinto de verdade! Eu sei que tenho alguma coisa….!”
Nesta trajetória do paciente de porta em porta de clínicas médicas, e tendo como resultado um sem-nome-para-dar-prô-que-dói, ou um cem-nomes-para-dar-prô-que-dói, muitas vezes já tendo sua vida profissional, pessoal, social afetadas ele então se pergunta que caminho tomar para livrar-se de todo esse mal. Esse malvado sofrimento que o acomete.
Há muitos anos, portanto longe de ser descoberta contemporânea, Freud esforçou-se em descrever variadas formas de sofrimento. Para ele, a tristeza ou o luto é a reação à perda de um ser amado ou de uma abstração equivalente, como a liberdade ou um ideal, por exemplo. Muito embora se trate de um estado que impõe ao sujeito consideráveis desvios de sua conduta normal, esse tipo de tristeza não deve ser encarada como um estado patológico e portanto o sujeito aflito não deve ser submetido a tratamento médico com a intenção de suprimir essa dor. Freud pontua que ao fim de algum tempo esse estado emocional desaparecerá por si mesmo, e julga inadequado e inclusive prejudicial perturbá-lo[1]. O que é possível e adequado é trabalhá-lo terapeuticamente, na tentativa de elaborar a tristeza ao invés de suprimi-la.
O que geralmente acontece é que essa tristeza é fácil de ser confundida com a depressão, tão popularmente diagnosticada nos dias atuais. Uma das diferenças está no fato de que a depressão é uma forma de patologia do trabalho de luto, como se algo em sua elaboração ficasse interrompida, estagnada no ponto onde dói. A depressão é isso que assume a forma de um mais além do luto.
Nas últimas décadas, conforme afirma Rodrigues, a depressão tem sido assunto de destaque principalmente no campo da psiquiatria. Impressiona a quantidade de pesquisas e publicações com o objetivo de tratar a respeito deste tema, além do alto investimento da indústria farmacológica na medicação antidepressiva. E não é pra menos! Conforme explica Kehl “a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a depressão, no início dos anos 2000, acometia 6% da população mundial e prevê que, até 2020, terá se tornado a segunda causa de morbidade no mundo industrializado, precedida apenas pelas doenças cardíacas.” Uma previsão assustadora, portanto. Kehl complementa que “O aumento assombroso dos diagnósticos de depressão nos países do Ocidente, desde a década de 1970, poderia ser interpretado simplesmente como efeito do empenho da indústria farmacêutica em desenvolver e difundir técnicas de diagnóstico favoráveis ao uso (quando não ao abuso) dos antidepressivos lançados a cada ano no mercado. Mas também pode indicar que o homem contemporâneo está particularmente sujeito a deprimir-se”[2]. Uma hipótese não exclui a outra!!
Em algumas situações, quando a pessoa perde o suposto controle de sua vida, muitas vezes ela rende-se a sedutora possibilidade de “curar” sua dor remediando-se, como quem busca a “salvação em tratamentos medicamentosos”[3]. Conforme Kehl (2009, p.16), muitas pessoas, tendo como suporte a ideologia de nossa sociedade científico-mercadológica e a oferta abundante de antidepressivos, buscam em um tratamento exclusivamente psiquiátrico a condição ideal para evitar o enfrentamento de suas questões subjetivas. Na falta de condições que lhes permitam elaborar o sentido de seu abatimento, muitos depressivos se apressam em concordar com o conceito de que sofrem de algum tipo de déficit. É notável que o discurso contemporâneo não valoriza a dor de viver e a tristeza, e descartam o saber a que esses estados emocionais podem conduzir.
Dito de outra maneira: “O mundo contemporâneo demonizou a depressão(…)”[4]. Como se fosse preciso evitar qualquer tipo de tristeza custe o que custar. É como se houvesse uma tendência social a enfrentar essa dor fazendo-se a seguinte pergunta: ficar triste, pra que? Depressão então?… desnecessária, disfuncional, desajustada! Vivemos tentando nos adequar a um sistema que exige implícita e explicitamente que nós todos devemos produzir (o máximo), e para isso precisamos estar sempre adequados e funcionais, caso contrário perdemos o valor (de mercado!!). E não é assim que funciona??
Bem, se é assim que as coisas são, então precisamos nos adequar e funcionar bem tal qual uma peça de um relógio que ao quebrar precisa de conserto ou ser substituída por outra mais eficaz, portanto todo mal deve ser eliminado rapidamente para que a peça volte a sua funcionalidade anterior, ou quiçá produza até mais do que produzia antes, ou, melhor ainda: otimize seu funcionamento e seja sempre feliz! J
Quem é que nunca ouviu falar em “pílula da felicidade”? Pois é…! vivemos em um tempo em que é preciso, mais do que tudo, ser feliz e ter prazer custe o que custar. Estamos imersos nesta concepção de vida! Este ideal circula por todos os cantos nos quais passamos: no caminho para o trabalho em outdoors, no estilo daquela personagem da novela que é feliz, linda, simpática, rica… (de dar inveja!). E como é, então, não corresponder a esta imagem, não atender a esse padrão idealizado socialmente, vendido o tempo todo e adquirido por (quase) todos nós, mesmo sem perceber? O jeito, muitas vezes, é entristecer cada vez mais e mais, tornando-se aquele que acredita que não dá conta, que se sente o infeliz, o desajustado ao mundo… É aí que entra em jogo a mágica pílula da felicidade…com a promessa de estabelecer a alegria constante de viver e a “adequação” social. E se houvesse essa pílula? E se eu pudesse não sentir mais essa infelicidade? E se eu não pudesse mais sentir… nada?
Pode parecer brincadeira, mas já houve quem tentasse produzir essa pílula que tanto faz parte de nossa imaginação e até mesmo de nosso ideal de felicidade contínua: “O marketing na ocasião do lançamento de drogas como o Prozac, que não tardou em ser chamada de ‘pílula da felicidade’, não se limitava aos efeitos antidepressivos da droga, mas anunciava a chegada de uma nova era: a era da ‘psicofarmacologia cosmética’,(…) na qual bastaria uma pílula para modificar a personalidade, tornando-a compatível com as exigências do mundo capitalista.[5]
Preocupante, não? Afinal o fato aponta para uma vulnerabilidade humana à mercê das indústrias farmacêuticas. Como é que os consumidores da felicidade contínua escolhem comprar essa ideia em pílulas? Conhecer algumas estratégias de que a indústria farmacêutica faz uso para divulgar e vender suas novas medicações funciona como um alerta: Frederick Crews, em artigo publicado em O Estado de S.Paulo, esclarece que: “a maior parte dos lucros da indústria farmacêutica depende de uns poucos remédios para os quais sempre se buscam novos usos. Se tais novos usos não surgem por meio de experimentos, recorre-se à publicidade de certos males – ou seja, a convencer as massas de que alguns de seus estados de ânimo são, na verdade, doenças que requerem tratamento. O objetivo é criar demanda espontânea pela cura milagrosa que a empresa pode oferecer”.[6]
“Assistimos, assim, a uma patologização generalizada da vida subjetiva, cujo efeito paradoxal é a produção de um horizonte cada vez mais depressivo. (…) Subtrair o sujeito – sujeito de desejo, de conflito, de dor, de falta – a fim de proporcionar ao cliente uma vida sem perturbações acaba por produzir exatamente o contrário: vidas vazias de sentido, de criatividade e de valor. Vidas em que a exclusão medicamentosa das expressões da dor de viver acaba por inibir, ou tornar supérflua, a riqueza do trabalho psíquico – o único capaz de tornar suportável e conferir algum sentido à dor inevitável diante da finitude, do desamparo, da solidão humana.”[7]
Portanto, o depressivo julga-se culpado por não ter capacidade de corresponder aos ideais contemporâneos de bem-estar e felicidade. A consciência dolorosa de sua não-adaptação é ratificada pelo esforço da indústria farmacêutica em restabelecer “os depressivos ao convívio regular com o coro dos contentes. A singularidade do sofrimento depressivo vem sendo banalizada pelo esforço de uma ala da psiquiatria que, aliada à indústria farmacêutica, esforça-se por reduzir as depressões a um somatório de transtornos entre os quais praticamente qualquer pessoa pode se incluir. Junto com a medicação, o que se vende é sobretudo a esperança de que o depressivo possa rapidamente normalizar sua conduta sem ter de se indagar sobre seu desejo.”[8]
“Lá onde o deprimido é esperado pela medicina, como vítima de um mal sobre o qual não teria responsabilidade alguma e sobre o qual não teria nada a dizer”, é lá que o tratamento medicamentoso deixa escapar o sujeito, que por sua vez, não é convocado a falar e é afetado pela tristeza que cala, pela dor que paralisa. Por outro lado, no lugar onde uma análise pode ocorrer, o melhor remédio que o psicanalista pode proporcionar é a oferta da escuta, que promove o bem dizer, que não é dizer sobre qualquer coisa – embora uma análise seja promovida pela associação livre -, mas sobre o saber recalcado que orientar-se no inconsciente.[9]
Por vezes, depois de um longo período tratando o sofrimento com as medicações o paciente procura um atendimento que ofereça esta escuta, talvez porque tenha se tornado insuportável conviver com seu próprio empobrecimento psíquico, (e a esta altura ele já percebeu que psicofármaco nenhum irá restabelecer isso), então busca algo que lhe proporcione um lugar diferente, um outro sentido, uma ressignificação de sua dor. E é aí que a psicanálise pode atuar.
Evidentemente as medicações são importantíssimas e até mesmo indispensáveis em muitos casos, porém longe de ser em todos. É o uso indiscriminado e o abuso em calar todas as emoções e embotar a vida psíquica que faz com que a administração dessas drogas possa se tornar prejudicial não apenas para cada sujeito, mas de uma forma coletiva afetando toda a humanidade, que rumando por essa via caminha para silenciar o psiquismo, forçando não apenas o sofrimento a calar-se, mas também toda a riqueza que reside na elaboração da dor de viver que cada sujeito pode empreender em seu curso de vida. A via analítica que conduz à descoberta que cada um pode encontrar num trabalho que promova a escuta é sempre liberta-dor.
O sofrimento faz parte da vida. Só temos notícia da alegria e da felicidade devido à experiência de sofrer. Encarar a dor e o sofrimento como inimigos a serem aniquilados da vida custe o que custar é também aniquilar a própria vida.
Lidar com o sofrimento, enfrentar a dor, é também falar dela. Atribuindo corpo à tragédia da vida através da palavra que cada um pode falar. Falar nas linhas e nas entrelinhas. Encenar através da linguagem esta tragédia é transforma-la em um drama, o drama da própria história de vida. Reescrevendo-a da maneira particular que cabe a cada sujeito. Isso transforma a paralisia e rigidez causada pela dor na possibilidade da dança de viver responsabilizando-se pelos movimentos da vida e sendo tocado de outra forma pelo próprio sofrimento.
Referências:
FREUD, S. (1916). Tristeza e melancolia. Obras Completas. Rio de Janeiro: Delta, sem data, v. XVIII.
KEHL, M.R. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo editorial, 2009.
RODRIGUES, M.J.S.F. O diagnóstico da depressão. Psicol. USP, vol.11, n.1. São Paulo, 2000. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642000000100010#back> Acesso em: 28/05/2014.
[1] FREUD, S. (1916). Tristeza e melancolia. Obras Completas. Rio de Janeiro: Delta, sem data, v. XVIII. (p.236).
[2] KEHL, M.R. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo editorial, 2009. (p.12).
[3] Ibidem, p.16
[4] Ibidem.
[5] RODRIGUES, M.J.S.F. O diagnóstico da depressão. Psicol. USP, vol.11, n.1. São Paulo, 2000. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642000000100010#back> Acesso em: 28/05/2014.
[6] Frederick Crews, “Ilusões e desacertos da era Prozac”, O Estado de S.Paulo, 2/12/2007. Citado p. KEHL (2009, p.53).
[7] KEHL, M.R. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo editorial, 2009. (p.52, 53).
[8] Ibidem, p.103, 104.
[9] RODRIGUES, M.J.S.F. O diagnóstico da depressão. Psicol. USP, vol.11, n.1. São Paulo, 2000. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642000000100010#back> Acesso em: 28/05/2014.

